Uma campainha. Click. Uma árvore morta. Click. Uma matilha na madrugada. Click. Desde quando ganhei minha primeira - e ainda funcional - câmera digital, aprendi a ter a fotografia como uma distração. Talvez o custo das antigas câmeras impediram minha entrada nesse mundo tão divertido.
Mas não sou um fotógrafo profissional, quiçá amador. Sou um amante das fotos apenas. Tenho uma câmera bem modesta, me contento com instantâneas tiradas do telefone móvel e faço poucos ajustes em programas de tratamentos de imagens. Gosto simplesmente de captar instantes. Vou além, legendo minhas fotos. Tenho alguns álbuns digitais em que catalogo minhas criações fotográficas. Mas, como nas antigas iluminuras, a imagem não é simplesmente legendada, ela compõe um texto à parte. As fotos passaram a me acompanhar.
Mas notei que tempos pra cá minhas fotos foram se tornando apenas conceituais. Deixei de "tirar retratos" como diziam os antigos. E cada vez mais deixei de tirar fotos da família ou de amigos. Agora não faço a menor questão de tê-las comigo. Ok, poso para fotos, até clico algumas, mas não tenho nem pasta no meu computador para guardá-las. Por que isso?
Depois do falecimento de minha mãe não consegui mais olhar para os álbuns antigos. Tive um trabalho absurdo para digitalizar mais de 300 fotos em vão. Digitalizei e cataloguei todas as imagens do meu passado, bem como de toda a família Valpaços. Agora, não consigo nem me aproximar delas. O falecimento da minha mãe foi um marco. Não quero vê-las em fotos. Ela se foi. Ela foi. Não é mais. A sua memória sempre estará comigo. A imagem dela é apenas um fetiche do passado, que não quero que consuma meu presente.
Notei que esse marco alterou minha própria relação com fotografias. Não faço questão de levar para casa todas as fotos dos amigos em uma reunião. Prefiro tirar foto de alguma ocasião específica, ou ainda de um pé, mochila ou comida qualquer. As pessoas e a "reunião" vão se transformar em nostalgia aos primeiros tons sépia que envelhecem as fotos. Eis o passado que deve ser morto a cada momento por mim.
Esse natal não é diferente. Minha família mutilada está reunida. Não vou registrar esse momento sem minha mãe. Não vou registrar uma reunião de amigos para que, ao revê-la pense "era tão bom" ou ainda "fulana já morreu". Deixo a fotografia então ser simplesmente arte. Arte que se propôs inicialmente a registrar com mais fidelidade o real, mas que, para mim é apenas arte. Conceitual, apaixonante e amante.

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