quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Relações sociais no coletivo 10: Desligue essa TV!


Cinco da manhã. O sol ainda estava escovando os dentes e eu já subia as escadas do ônibus que me levavam à senzala remunerada de cada dia. O horário de verão deixa as manhãs do Rio mais góticas, do jeito que gosto. Melhor para dar uma cochilada no trajeto para o trabalho.

Entrei no coletivo, rodei a roleta. Vi algo novo ali no canto, do lado do balaústre, do lado direito do corredor. O que é aquilo ali? - pensei. Não, não pode ser, não pode ser um monitor, uma... uma televisão no buzão! Sim, era aquilo mesmo. O único lugar disponível no coletivo que encontrei seria iluminado pelos leds do monitor tela plana. Pelo menos não há som, pelo menos... 

Depois de alguns dias já tinha me acostumado a dormir com aquela iluminação insistente. Mas o mal estava feito: os monitores passaram a acompanhar todas as viagens. As TVs se tornaram pragas e estão em todos os coletivos que passei a tomar. Ok, aquelas telas transmitem algumas notícias relevantes como informações sobre meteorologia, cultura e trânsito. Mas a presença hipnótica daquela caixinha iluminada está desestruturando as relações sociais no coletivo.

Dia desses me peguei olhando para as notícias. Reflexo automático, ficamos acesos com o brilho e com o movimento. A novidade é sempre um atrativo para esse tal homo-sapiens-sapiens. Parei quando percebi que havia alguém do meu lado que merecia mais atenção que qualquer tabloide digital. A TV em qualquer lugar tem esse potencial de desagregar. Mas aqui não! 

Os coletivos sempre foram meu local especial para ver todos que - como eu - estamos em transição de um lugar para outro, de um pensamento para outro, de uma relação para outra. Plasmados naquelas caixas coloridas os olhares deixariam de se entrecruzar, as vozes se calariam e as conversas assim ficariam seladas definitivamente no território do passado. Não quero que as relações sociais no coletivo se tornem apenas crônicas, ou seja, fiquem apenas no vagão da nostalgia. Então: desligue essa TV!

sábado, 14 de janeiro de 2012

O tal veneno necessário


Um pouco de veneno no sangue é necessário. Temos que nos envenenar um pouco pra sabermos como nos defender frente a uma real intoxicação. Biologia na vida, eu acredito. Sempre me aproximei um pouco do que eu depreciava para ter subsídios para desconstruir. Nunca me contaminei demais, pois minhas raízes sempre foram muito fortes. Fui plantado em solo suburbano, fui adubado com coronhadas de PMs e regado com carinho de quituteira. Cresci no mercado de trabalho e dei frutos sempre um pouco amargos. Me podar não é tão fácil assim.

Férias sempre foram momentos de laboratório para mim. Tento experimentar um pouco do conto de fadas do território do ócio. Mas minha cara fechada denuncia que minha cabeça voa longe, longe das casas de praias, churrascos e sobremesas geladas. Não que não goste disso, mas fazê-lo sem qualquer preocupação é artificial. Daí ouço que é importante viajar, se desconectar, deixar seus problemas de lado. Fácil dizer isso enquanto a caixa de correio coleciona contas e os famosos impostos de início de ano.

Mas os problemas nem são apenas "meus". Tragédias que as chuvas trazem predizem as eleições desse ano. Tudo isso foi temperado por cloro de piscina. E eu com radinho ligado e sempre ligado pra minha família. Tudo certo, o teatro não existiria sem o palco e seus atores, afinal?

Não digo que não me diverti. Ri muito, brinquei, joguei bola como criança. As drogas também tem seus efeitos positivos, não seriam elas nossos remédios? Venenos bons também, drogas que escolho voluntariamente. Servem para adormecer, e preparar para o acordar com mais ímpeto. Até porque de que serviria todos os papos sem conscientização senão para adubar um pouco mais a árvore que sou?


domingo, 25 de dezembro de 2011

Fotos, não retratos.


Uma campainha. Click. Uma árvore morta. Click. Uma matilha na madrugada. Click. Desde quando ganhei minha primeira - e ainda funcional - câmera digital, aprendi a ter a fotografia como uma distração. Talvez o custo das antigas câmeras impediram minha entrada nesse mundo tão divertido.

Mas não sou um fotógrafo profissional, quiçá amador. Sou um amante das fotos apenas. Tenho uma câmera bem modesta, me contento com instantâneas tiradas do telefone móvel e faço poucos ajustes em programas de tratamentos de imagens. Gosto simplesmente de captar instantes. Vou além, legendo minhas fotos. Tenho alguns álbuns digitais em que catalogo minhas criações fotográficas. Mas, como nas antigas iluminuras, a imagem não é simplesmente legendada, ela compõe um texto à parte. As fotos passaram a me acompanhar.

Mas notei que tempos pra cá minhas fotos foram se tornando apenas conceituais. Deixei de "tirar retratos" como diziam os antigos. E cada vez mais deixei de tirar fotos da família ou de amigos. Agora não faço a menor questão de tê-las comigo. Ok, poso para fotos, até clico algumas, mas não tenho nem pasta no meu computador para guardá-las. Por que isso?

Depois do falecimento de minha mãe não consegui mais olhar para os álbuns antigos. Tive um trabalho absurdo para digitalizar mais de 300 fotos em vão. Digitalizei e cataloguei todas as imagens do meu passado, bem como de toda a família Valpaços. Agora, não consigo nem me aproximar delas. O falecimento da minha mãe foi um marco. Não quero vê-las em fotos. Ela se foi. Ela foi. Não é mais. A sua memória sempre estará comigo. A imagem dela é apenas um fetiche do passado, que não quero que consuma meu presente.

Notei que esse marco alterou minha própria relação com fotografias. Não faço questão de levar para casa todas as fotos dos amigos em uma reunião. Prefiro tirar foto de alguma ocasião específica, ou ainda de um pé, mochila ou comida qualquer. As pessoas e a "reunião" vão se transformar em nostalgia aos primeiros tons sépia que envelhecem as fotos. Eis o passado que deve ser morto a cada momento por mim.

Esse natal não é diferente. Minha família mutilada está reunida. Não vou registrar esse momento sem minha mãe. Não vou registrar uma reunião de amigos para que, ao revê-la pense "era tão bom" ou ainda "fulana já morreu". Deixo a fotografia então ser simplesmente arte. Arte que se propôs inicialmente a registrar com mais fidelidade o real, mas que, para mim é apenas arte. Conceitual, apaixonante e amante.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A bruxa do supermercado


Passeio de pobre é supermercado. Máxima suburbana que revela um certo preconceito, mas que infelizmente não deixa de ser verdade. Como suburbano que sou, piloto o carrinho de supermercado sempre que possível. Mas sou um pouco diferente dos habituès dos mercados. Ao invés de prestar atenção nas gôndolas e promoções, me atenho às pessoas que frequentam os supermercados.

Fico mais atento na fila, até porque não muito o que olhar. Dia desses em um supermercado na Tijuca, deparei-me com uma bruxa. Nada de verrugas ou vassouras. A bruxa que vi era  - a princípio -  uma tatuagem. Sobre o a pela branca com pintinhas, as cores da bruxa envolta por galhos vibravam ao lado do vermelho de seus cabelos. Não vi os olhos da bruxa pois seu chapéu os escondia. Bruxa colorida, jovem, viva. Bem diferente do estereótipo que conhecemos. Fiquei a pensar sobre os percalsos dos pagãos ou heréticos no medievo e no renascimento que sofreram perseguições mil só por ter uma relação com a natureza um tanto diferente.

Em meio de meu devaneio senti um forte cheiro de ervas. Seria a bruxa? Olhei para a tatuagem e o cheiro ficava mais forte. Pensei que estava ficando louco, quando notei que aquele braço também era de uma bruxa. Uma jovem senhora usando roupas brancas parecia se divertir ao notar que eu olhava para aquela tatuagem. Na hora me espantei ao ser surpreendido por seu olhar. A bruxa - de verdade - não tinha chapéu...

A bruxa do supermercado retribuiu meu elogio a sua tatuagem com um aceno de cabeça. Não seria eu o seu inquisidor. Vivemos em um mundo em que os preconceitos se dão de outra forma. Bruxas vivem soltas e voam em seus Fiats pelas ruas. Mas agora têm que comprar seus ingredientes de feitiços. Mas podem ficar na mesma fila que eu sem qualquer preocupação em serem queimadas. Aliás, com o calor aqui do Rio, talvez possam ir à praia para se queimarem voluntariamente...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O homem-ilha, ou o café da vitória

O homem não é uma ilha. Dito popular foi assoprado no ouvido do imberbe. Depois que ele cresceu, leu Waly Salomão: "a memória é uma ilha de edição". Mas isso não é contraditório, ao que parece. Quando selecionamos nossas memórias, sentimentos e demais segredos, nos transformamos literalmente em uma ilha.

É impossível dividir sucessos. Também não dividimos frustrações. Ganhamos ou perdemos, juntos ou sozinhos. O ato significa e encerra a cena, o processo posterior é sempre individual.Não fazemos algo e depois distribuímos. O processo de formação da memória é solitário: não selecionamos bons ou maus momentos acompanhados. Quando introjetamos no nosso âmago as boas ou mais sensações, somos acompanhados apenas pelo mar salgado.

É claro que a memória é uma construção social e apenas se faz pela inserção que temos no mundo, pela relação que temos com outros indivíduos. Para além, a memória não é um conteúdo estático. Reorganizamos nossas lembranças a todo momento. Deixamos fragmentos bem escondidos e revelamos  outros outrora foscos. E criamos, ah se criamos! Criamos as melhores memórias de passados incompletos. Basta não lembrarmos perfeitamente de algo que aconteceu para que nossa ilha de edição ganhe um toque lúdico: passamos a fantasiar o passado com o que queremos. Todos somos trovadores da poesia do passado que se escreve em nossa memória. Se não nos permitíssemos inventar um pouco e fantasiar, simplesmente não lembraríamos de nada, porque é mais fácil lembrar de uma canção do que de um simples texto.

Dia desses pensei em todos os cafés que tomei depois que consegui algo bom em minha vida. Criei a categoria "café da vitória" para rotular as entradas de conquistas em meu catálogo do passado. Sinto o gosto amargo e o calor na boca ao lembrar de algo bom que fizera. E não seria mesmo assim? As vitórias não tem sempre um quê amargo - da luta -  e um calor próprio da conquista? 

Mas ao fim de tudo a ilha não quer apenas o mar. Prefere tornar-se uma península ligando ao continente por alguma faixa da terra. Só assim, quando deixo de ser ilha, lembro que o café não serve para ajudar a lembrar - algo que sempre foi lento e sonolento - mas para se ater ao presente, a ficar bem acordado. 

Entre cafés e ilhas, lembro que já em Cabo Verde se plantava café... bem antes de Pindorama.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Neguinho

Todos já ouviram falar do tal "neguinho". Neguinho tem culpa de nada e neguinho tem culpa de tudo... não? Escute a música para refletir um pouco sobre a questão...



Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho

Neguinho comprou o jornal, neguinho furou o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei: neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o nego acha que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei: neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den'dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney e volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho

Neguinho quer justiça e harmonia para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei: neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Relações sociais no coletivo 9: A ruiva maquiada da Pavuna



Final de expediente, cansaço, vontade de chegar logo em casa. Dia como outro qualquer se não fosse temperado pela satisfação de boas aulas dadas naquela noite de quinta-feira. Por mais uma vez voltaria para casa com aquele sorriso no rosto igual ao de um adolescente que está voltando para casa depois de uma noite na casa da namorada. 

Tomei o primeiro dos dois ônibus no trajeto Acari-Pavuna-Olaria. A baixa iluminação dava um certo tom de suspense à cena. Percebi que havia poucos lugares, todos compartilhados. Decidi sentar-me ao lado de uma ruiva no lado direito, relativamente bem iluminado. Ao sentar notei que todos olhavam para aquele banco duplo. Obviamente não estavam olhando para mim, mas para a ruiva, que se maquiava.

Sobrehumana é essa técnica que algumas mulheres têm. Como conseguem riscar os olhos com lápis negro, passar batom e se olhar no espelho com as trepidações dos coletivos? Garanto que não conseguiria fazer tal peripécia com medo de enfiar algum dos apetrechos - que para mim são uma mescla de instrumentos cirúrgicos com pincéis artísticos - nos seus olhos. Mas, como mortal e homem que sou, admiro, apenas.

Mas naquela noite não prestei atenção à cena. Notei que era devorado pelos outros marmanjos que queriam sentar ao lado da ruiva, mas que não tiveram tal ousadia. Explico: a pequena ruiva, única mulher na condução, estava bem arrumada demais para o clima de final de expediente suburbano. Todos os homens - inclusive eu - estávamos suados e cansados. Estragaríamos a candura do momento. Não percebi esse "código oculto" e sentei ali como se não violasse nenhum tabu. Daí para frente fui condenado pelos olhares sequiosos dos companheiros de viagem.

Conforme dizia: não prestei atenção, e persisti não prestando. Não sou daqueles que fica babando em mulheres, sobretudo em situações como aquela. Peguei um livro e comecei a ler. Daí pra frente o rito mudou. Notei que a ruiva queria atenção de todos - e isso não seria comum para todas as mulheres? - e passou fazer movimentos exacerbados. Mas ela não tinha a atenção dos marmanjos? Tinha. Mas não tinha a minha atenção. Seus movimentos peripatéticos eram destinados a mim, aquele que se esgueirava dos encantos da sereia de cabelos de fogo.

Ao notar que ela flertava, ignorava-a. Cada vez que ela esbarrava em mim ou me olhava, me enfiava mais no enredo do livro. Brinquei com ela. Brinquei muito. A ruiva queria a minha atenção, os marmanjos queriam a atenção da ruiva. Não dava atenção à ruiva e os marmanjos ficavam com mais raiva de mim. Primeiro, tinha sentado ao lado dela. Depois, a esnobava. Descobri-me enquanto centro da gravidade daquele 665.

Fim de viagem, hora de descer. Ainda tinha que tomar outra condução antes de chegar ao meu bairro. Pulei do banco e fui o primeiro a descer do ônibus. Duas quadras a frente me viro e noto que a ruiva estava me seguindo. Ao encará-la ela virou a face para disfarçar. "Quem seria aquele que me ignorou por tanto tempo?", deveria ter pensado. Ora, eu não fico encantado assim tão facilmente. Já tenho minha ruiva que se maquia em ônibus. Essa sim, se maquia pra mim. Não preciso de outra.

sábado, 19 de novembro de 2011

Aula de conversação


Sempre tive uma certa pinima - isso mesmo, pinima - com cursos de idiomas. Não tenho um pensamento pequeno e até acho muito interessante a ideia de viajar pelo mundo. Acho que justamente por ter algum de "aventuresco" em mim que não aprecio a ideia dos "cursos de idiomas". Uma ideia muito boa para mim é viajar para um local desconhecido sem saber uma palavra daquele idioma, ou pelo menos sabendo muito pouco. Daí, pelas relações que desenvolveria naquele "mundo estranho" eu aprenderia o idioma. Isso mesmo, sem gramática, sem regras, pela fala, pela prática, pelo contato entre as pessoas. Aliás, não foi assim que aprendemos a nos comunicar? Creio que nossos ancestrais não leram manuais para se comunicar com seus pares...

Ok, a ideia do intercâmbio poderia até ser essa, se não fosse escondida pelo raio do ideal último dos cursos de qualquer coisa: emprego, mercado de trabalho e dinheiro mesmo. Pelo menos gostaria de pessoas mais sinceras e honestas consigo mesmas e que falassem os motivos para aprender outros idiomas. É claro que há pessoas que aprendem outro idioma porque gostam, porque apreciam uma outra cultura, por exemplo. Mas a finalidade de qualquer língua não é sua contemplação/erudição, mas seu uso. Isso mesmo, os idiomas foram feitos para serem um elo de entendimento entre pessoas. Parece banal não? Pois é, parece e é, mas garanto que uma boa parcela das pessoas que "usa outro idioma" não pensa nisso. 

O principal motivo para o aprendizado de um idioma é o "consumo". Não aprendemos inglês ou francês para falarmos em inglês ou francês, mas para que entendamos um texto ou uma música ou filme nesses idiomas. Ainda se fôssemos usar o idioma para nos comunicarmos com outrem, tudo bem. Mas aí vem o pior... a tal aula de conversação...

Vamos entender a cena: pessoas pagam pra conversar em uma pseudo aula com roteiro estruturado em um idioma que vão usar apenas naquele momento no dia. Sim, se nunca olharam por esse ponto de vista é exatamente isso que é uma aula de conversação. Em resumo, pagamos para falar com desconhecidos, mas não temos coragem para falar com desconhecidos fora dessa estranha "aula". Pior, podemos desenvolver laços de amizade com esses desconhecidos, mas não nos arriscaríamos de forma alguma em nos encontrar com eles fora "do curso".

Quase sempre os cursos se voltam mesmo pra a a escrito e para a "audição". Acho mais honesto ser um "especialista no consumo" do que ser um real entendedor de outro idioma, o que implica em pensar através de outra gramática, o que minimamente é complicado, já que cada linguagem tem um suporte cultural e cosmovisão minimamente estruturada. Não sou contra os que aprendem e realmente se comunicam em outro idioma, mas isso deve ser uma ação feita por adultos, e não por crianças. Sei que vão dizer - com razão - que a plasticidade neural de crianças é superior a de adultos, mas é aí que eu ataco. As crianças "daqui" devem pensar de acordo com nosso suporte linguístico e cultural. É, isso mesmo. Falo de bases, de enraizamento sócio-cultural. Isso não é visto pelos pais que colocam filhos em escolas n-língues, justamente porque o objetivo é o mesmo de sempre: sucesso, lucro, dinheiro.

Digo que as pessoas mais interessantes que conheci foram em "conversações descompromissadas" sem roteiro. Simplesmente decidi puxar assunto e conversar com desconhecidos. Fiz isso com a minha língua. Fiz isso do meu jeito. Fiz isso e ainda faço. Tenho uma vida minimamente sem roteiros no quesito "conhecer pessoas". E há milhões de pessoas com quem posso conversar usando o meu léxico, mesmo que em cada lugar elas falem idiomas - culturalmente falando - distintos. Prefiro esse desafio a estar em aulas de conversação... até porque não se aprende a conversar, não é mesmo?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Dando nome aos bois


"Olha para aquele passarinho, menino!" Esbugalho os olhões de criança curiosa e disparo: "É Joãozinho o nome dele!" 

Eu sempre gostei de nomear os animais, brinquedos e quaisquer objetos "animados" que estavam ao meu redor.  Fiquei matutando sobre isso depois de apontar para um pombo na rua e inquirir a patroa: "Qual o nome desse pombo?". Ela respondeu: "Sei lá, mô." Fiquei algum tempo espantado com o hábito que compartilho com o personagem  Germain Chazes, interpretado magistralmente por Gérard Depardieu em Minhas Tardes com Margueritte. E daí lembrei que esse hábito vem da minha infância e que ainda hoje o faço. Mesmo que guarde apenas para mim mesmo, vou nomeando tudo que vejo pela rua, até as pessoas. 

Nomear é ter poder sobre o outro, dizem alguns. Realmente quando damos um nome passamos a identificar do nosso jeito. É como se estivesse etiquetando o mundo. Mas acho que esse meu hábito não tem requintes de possessividade ou de megalomania. Apenas nomeio por diversão e por fantasiar um pouco tudo que me cerca.

Aliás, há um pouco de loucura nisso sim. Ok, não sou megalomaníaco, pelo menos espero. Mas com certeza  há uma perturbação em minha mente ao dar nomes quase automaticamente para tudo que se move. Mas alto lá, sou um pouco criterioso nos meus batismos. Não coloco um nome próprio em cada objeto que vejo, senão seria uma loucura, imaginem só. Olho para um pacote de biscoitos e comento "esse é o pacote de biscoitos Cléber" ou ainda "essa é a garrafa pet Mariana". Claro que não faço isso, pelo menos por enquanto. Meus nomes próprios são destinados a seres humanos, animais ou objetos animados pelo homem, como bonecos, marionetes, etc. Minha loucura tem arestas...

Acredito que essa mania de dar nome para tudo - que cobro aos demais como se fosse bem natural - se relacione com minha criatividade. Olho para as pessoas na rua e imagino como a Paula está se sentindo ou ainda se o Jonas está com calor ou frio. Ainda penso se o Marquinho está com aquela feição porque está atrasado. Em um mundo tão vasto, gosto de nomear os personagens anônimos das várias histórias que me cercam. Tudo bem, isso pode ser uma vontade possessiva de guiar a vida dos outros, ou ainda uma mania de observar que pode ter seu lado de "perseguição". Mas acho que essa minha mania não chegou nesses extremos e ela me ajuda muito a criar e a encarar as outras pessoas como indivíduos e não apenas como figurantes da minha história.

Espero que não tenha parecido muito louco ao falar isso para vocês todos, Jaime, Paulo, Bruno, Marcela, Eduarda, Larissa, Jéssica, Marco Antônio, Leandro, Caio, Gláucio, Júlio, Nayanna, Jefferson, João, Elaine, Paula, Tadeu, Fabiana, Vítor, Marília, Bianca, Alfredo, Osvaldo...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Porque gosto do horário de verão?



Todo ano é a mesma coisa. Todo ano a mesma ladainha. Nos meados da primavera, aos toques dos clarins da impressa, é anunciado o início do horário de verão. Não, a ladainha não é o anúncio oficial de uma prática um tanto antiga no Brasil, e presente em tantos cantos do mundo. A ladainha vem dos comentários pró e contra o horário de verão.

Argumentos não faltam para defender ou criticar aquela hora que se desloca pra lá e pra cá. O próprio final de semana em que começa o horário de verão é alvo de polêmica. "Perdemos uma hora!" dizem os que se esquecem que ao término do horário de verão essa hora "volta". Acredito que a resistência ao horário de verão se relacione também com uma certa nostalgia. Convenhamos, aqui para o Brasil não é algo tão antigo, logo a resistência é natural.

Na minha concepção acho um tanto vazia a crítica ao horário de verão. Normalmente há três argumentos. O primeiro é que a economia de energia - o motivo para adiantarmos o relógio - não compensaria. Mas há economia real de energia. Qualquer esforço em reduzir o consumo é válido, no meu ponto de vista. O segundo argumento se relaciona com a falta de segurança das ruas pelas manhãs. Isso é uma questão de segurança pública e nada tem a ver com o horário de verão. As ruas devem ser seguras pelas manhãs, tardes, noites e madrugadas. A terceira toca o tema "hábito" que é mudado. Pois bem, há países com vários fusos horários e pessoas que atravessam-no cotidianamente. Ser historiador me faz lembrar que o relógio e a forma de marcar o tempo é uma convenção. Por que esse tempo que se marca como duas da tarde não pode ser quatro da manhã?

Retirando toda a argumentação racional, lembrei-me que antes de pensar em todas as refutações aos críticos do horário de verão já gostava desse período. Por quê?

O horário de verão para mim tem uma relação intensa com uma certa memória afetiva dos tempos em que estudava. Horário de verão sempre rimou com final de ano letivo, tempo de soltar pipa na laje até oito da noite sem escurecer, de tomar sacolé feito pela minha mãe, de jogar bola com o pessoal, de alugar jogos de videogame. Ok, fazia tudo isso durante o ano letivo, mas normalmente nos finais de semana. Sempre fui muito "caxias" nos estudos. Outro motivo para gostar de horário de verão era as férias do meu pai. Ele sempre tirava as férias no verão e eu sempre tive o meu pai como um grande amigo e conselheiro, diferente de outros garotos que sempre brigavam com os pais. 

Gostava de ver o o sol nascer, não gostava de vê-lo se por. Tinha a boba ilusão que o dia era maior. E ainda tenho. Concluo que não gosto do horário de verão por causas racionais, calculadas. Gosto pelas coisas pequenas, pela felicidade da quebra da rotina, pelo calor do sol que bronzeia um pouco as peles brancas das salas de escritório. Gosto de ainda sentir tudo isso no presente, pois se tudo ficasse no passado certamente me faria mais sofrer que celebrar...